Nesse blog irei postar textos e artigos de minha autoria com temas diversos, vistos de uma perspectiva reformada da Bíblia. Também irei postar resenhas e indicações de livros. Você, caro leitor é livre para comentar com críticas, elogios ou complementos, mas sempre com respeito. Este blog tem o intuito de trazer edificação aos cristãos, e, se possível, pela misericórdia de Deus e obra do Espírito Santo, alcançar os perdidos.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Jejum

Primeiramente, apenas para caráter de informação, vamos ao conceito de Jejum segundo o dicionário: “Abstinência de toda espécie de alimento por um período de tempo por espírito de penitência.” É bom reconhecermos que o conceito cristão de Jejum abrange muito mais que uma abstinência física de alimento. Logo abaixo, iremos ver o conceito, o propósito e os pilares que compõem o Jejum.

Neste pequeno artigo, quero explanar esse assunto (que é mais abrangente do que muitas pessoas imaginam) de uma forma clara e bíblica, na tentativa de trazer compreensão a muitos cristãos, e, por conseguinte, combater o conceito deturpado sobre o mesmo, encontrado hoje em dia em nosso meio.
O Jejum é uma prática inserida em vários contextos na história bíblica (irei explicar adiante). Mas você já se perguntou, qual é, em primeira instância, o seu propósito?

Para compreendermos essa indagação, vamos ao texto de Mateus 9:14-15:

“Então, chegaram ao pé dele os discípulos de João, dizendo: Por que jejuamos nós e os fariseus muitas vezes, e os teus discípulos não jejuam?
E disse-lhes Jesus: Podem porventura andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão.”
No texto acima, vemos claramente o propósito primordial do Jejum, que é explicado por Richard Foster de maneira magnífica:
“O contexto do jejum na cabeça de Jesus é o desejo intenso pela vinda do Reino.”

Entendemos então, que, a prática do jejum é um dos pilares que sustentam nossa espera pela Segunda Vinda de Jesus Cristo. Quando o Noivo (Jesus) é retirado de nós, surge essa dor no coração do povo de Deus, e essa é a ideia geral sobre o seu significado. Vemos como é incrível a unicidade entre o conceito e o propósito do jejum.
Através da compreensão acima explanada sobre o conceito e propósito do jejum, em sua essência, podemos seguir adiante, aprofundando ainda mais esse assunto.
O Jejum é uma prática que é composta por três pilares: Arrependimento, Renúncia e Direcionamento. Abaixo, irei discorrer sobre cada um (com bases bíblicas):

· Arrependimento – (Joel 2:12, Jonas 3:5-10, Dn 9:3-6, Ne 1:4) Em todas as passagens colocadas acima, vemos o jejum no contexto de arrependimento. No contexto de Jonas, por exemplo, a mensagem pregada por ele, sendo usado por Deus, na obra do Espírito Santo, penetrou aos corações endurecidos. A atitude de todos eles, inclusive do rei, foi jejuar, se vestindo de pano de saco, se abstendo do alimento, e, por conseguinte, se arrependendo dos seus pecados. Nas outras passagens, acima citadas, vemos também o mesmo cenário: o arrependimento como fator fundamental do jejum. 

· Renúncia – Na prática do jejum, a renúncia não deve ser somente física, mas aliada ao arrependimento, tem que ser uma renúncia de nossos desejos (Dn 1:8, Gn 39:7-15). Hoje em dia, é muito comum pessoas jejuarem para que seus sonhos e desejos se realizem. Isso acaba reduzindo a prática do jejum a um meio de se conseguir o que queremos, em vez de ser um meio de renunciarmos nossa vontade, para que a vontade de Deus seja feita.

· Direcionamento – (Ester 4:16, Esdras 8:21, Atos 13:2-3 e 14:23). Mesmo em contextos diferentes, as passagens acima tem o mesmo sentido: ter a direção de Deus através do jejum. Nas passagens de Atos, profetas e mestres oravam e jejuavam, tendo o intuito de ter um direcionamento da parte de Deus, em suas decisões. E o Espírito Santo os respondeu, dizendo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra que os tenho chamado.” Você consegue notar, caro leitor, a unicidade entre os três pilares que compõem o jejum? O arrependimento diário é necessário para um viver santo, renunciando nossos desejos carnais, e tendo o direcionamento de Deus nas decisões que temos que tomar segundo sua Vontade.

É bom que fique claro que, a prática do jejum é, em sua essência, algo pessoal com Deus. Isto é, quando jejuamos, não é correto “sair dizendo para as pessoas que estamos jejuando.” Afinal, mesmo que nossas motivações não sejam egocêntricas, como no caso dos fariseus (Mt. 6:16-18), do qual Jesus combateu veementemente, elas podem transparecer que somos superiores por praticarmos o jejum.

O Jejum atualmente tem sido feito de formas contraditórias e perigosas, àquelas explicadas biblicamente acima. Enquanto na Bíblia vemos pessoas jejuando, abrangendo o arrependimento, renúncia e direcionamento. Hoje em dia, as pessoas jejuam para que seus desejos e objetivos sejam realizados (como foi citado anteriormente). Entenda... meu intuito não é dizer que isso seja totalmente errado, mas que é perigoso. Afinal, jejuar para que “tal pessoa” seja curada, salva, etc... não é errado, em primeira instância. O errado é tornar o jejum exclusivo para isso, quando a essência dele é outra.

A Importância do Jejum

Toda vez que você for jejuar, lembre-se do propósito do jejum e dos três pilares que o compõem. Saiba que acima de qualquer outra funcionalidade, é preciso jejuar para que conheçamos mais a Deus e Sua Vontade em nossa vida. Quando jejuamos, nos expomos, passando a conhecer nossa identidade em Deus também. Passamos a conhecer pecados e erros que antes desconhecíamos, e, pela obra do Espírito Santo, podemos ser tratados. Você percebe a importância do Jejum? Precisamos, todos os dias, nos desarraigarmos da ideia de que merecemos algo e que Deus é nosso devedor. Nós é que somos e eternamente seremos devedores d’Ele. O jejum é uma das práticas que mais expõem nossa total dependência d’Ele. 

Em suma, deixo a você, caro leitor, uma citação de John Piper sobre o Jejum:

“O Jejum não é apenas uma exclamação positiva do: “Eu quero o Senhor! O Senhor é mais importante pra mim do que comida! Mas, também é uma declaração negativa e uma forma de expor idolatrias escondidas.”

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Chamados por Deus

De início, para que eu possa ter uma base, do qual solidifique meus argumentos a despeito desse assunto de forma bíblica, peço a você, caro leitor, que leia atentamente os versículos abaixo (que são bem conhecidos) encontrados na Carta de Paulo aos Romanos 8:28-30: 

"Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a esses também chamou; e aos que chamou a esses também justificou; e aos que justificou a esses também glorificou."

Vamos entender agora realmente o significado de CHAMADO de Romanos 8. É o chamado que abrange primeiramente sua eternidade. (Efésios 1:4). E secundariamente a nossa vida aqui na terra.
Como explicar então Mateus 22:14? No versículo que está escrito: “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”... O sentido de Chamado nesse capítulo todo envolve a pregação do evangelho. Quando pregamos as boas novas para as pessoas que ainda não o conhecem, estamos “as chamando, as convidando para conhecer e viver esse mesmo evangelho de Jesus”. Muitas irão ouvir a pregação, mas poucas serão salvas dentre as que ouviram. Sendo que a palavra pregada (chamada externa) alcançará os corações endurecidos, somente em unicidade com a obra do Espírito Santo (chamada interna, que é irrevogável).

Como posso saber se eu fui chamado por Deus?

Todos aqueles que foram regenerados, e, por conseguinte, frutificam sua regeneração através de sua vida em amor a Deus e a sua obra e busca por santidade evidenciam serem chamados por Ele.  Mas esse chamado não é só para cumprir sua obra aqui na terra. Mas, de antemão está diretamente atrelado à salvação (Verso 29). É bom compreender que nem todos chamados por Deus (no sentido “eleito para a salvação”) foram chamados ao ministério (no contexto eclesiástico).

Obs: Claro que há muitos que ainda não foram regenerados (mas que ainda serão) e são escolhidos (chamados) desde a eternidade por Deus, porém isso não vem ao caso, afinal não condiz com a pergunta acima. Apenas deixei como observação, pois é importante não tornar exclusivo o termo "chamados por Deus" somente aos que foram regenerados e não aos que ainda serão.

Como posso saber se eu fui chamado para o Ministério?

Primeiramente, é bom desmistificarmos a ideia de que as experiências sobrenaturais são evidências exclusivas para o chamado ao ministério. As experiências com Deus, podem sim ajudar no processo de compreensão sobre nosso chamado ao ministério. Mas há algumas evidências para o chamado ao ministério, que só confirmam o mesmo, se estiverem juntas. Deixe-me ser mais claro, caro leitor. Deus pode falar de inúmeras formas com você para que você compreenda qual o seu chamado. Mas é bom pontuar, que, não há uma evidência primária exclusiva para todos em relação ao chamado para o ministério. Em cada um, Deus trabalha de uma forma diferente (falando diretamente com você em seus devocionais, trazendo discernimento através dos dons que Ele o capacitou, etc). Porém, mesmo que o início seja diferente em cada pessoa, a confirmação do chamado é evidenciada pelo reconhecimento da Igreja (Atos 6:3). Se a igreja, como corpo de Cristo, não reconhece seu chamado ao ministério, há uma grande chance de você estar equivocado, ou com menos chances, de você não estar na igreja do qual Ele quer que você esteja (não por uma ser errada e a outra certa – embora às vezes esse seja o motivo - mas primariamente pelo propósito de Deus mesmo). Para que fique mais clara essa explicação acima citada, veja logo abaixo alguns pontos, dos quais trarão mais compreensão sobre o chamado ao ministério.


As Fases Iniciais do Chamado ao Ministério


Arrependimento – É a primeira fase do Chamado. O arrependimento genuíno é o que conduzirá o cristão a começar conhecer seu chamado. Sem arrependimento não há como viver o que Deus te chamou para ser e fazer.

· É um giro de 180 graus. Ex¹: Zaqueu roubava pra ganhar dinheiro, depois ele doou (dar) metade de seus bens (Lucas 19:8). Ex²: O carcereiro que violentava, passou a curar (Atos 16:16-40).

· A bondade de Deus nos conduz ao Arrependimento (Romanos 2:4).

· Produzi, pois frutos dignos de Arrependimento (Mateus 3:8 – Lucas 3:8).

Descoberta-Preparo – Após o arrependimento nós estaremos buscando descobrir o que fomos chamados para ser. E como descobrir seu chamado? Há algumas formas de descobrirmos nosso chamado. 

· Busque a Deus diariamente (Oração, meditação da palavra, Jejum). Uma analogia interessante (não como interpretação) é a multiplicação dos pães. O menino preparou seu lanche (5 pães e 2 dois peixes) em sua casa somente para ele e Jesus multiplicou o lanche daquele menino para alimentar toda uma multidão. Essa é a importância de sua vida devocional. Em seu tempo sozinho com Deus (Mateus 6:6) você recebe o alimento de Deus e esse alimento poderá alimentar uma multidão.

· Experiências negativas (Situações ruins que passamos em nossas batalhas extremamente difíceis, ou até erros e pecados que cometemos). Uma vez no passado isso, no presente isso se torna aprendizado. Nosso chamado abrange também essas experiências e algumas vezes essas próprias experiências podem ser um dos principais pilares de nosso chamado. Ex¹: Uma pessoa viciada em drogas futuramente passar a ajudar pessoas que possuem esse vício. *É bom que fique claro que esse ponto não apoia a prática do pecado, mas apenas o coloca num contexto de aprendizado após o arrependimento.

· Dons e Talentos (Os dons estão atrelados a nossa missão). Em Mateus 28:19 fala sobre pregar o evangelho a toda criatura, fazendo discípulos em todas as nações. Temos que descobrir para qual nação (Grupos de pessoas: médicos, mendigos, empresários, professores) fomos chamados e quais ferramentas nós iremos usar.

Ilustração (Helena Tannure): Tenho dois filhos e cada um vai para um lugar diferente. Um vai para o Alaska e outro para o Havaí. Na mala do primeiro irão as roupas de frio (Blusas, botas, toucas, luvas). Na mala do segundo filho irão às roupas de calor (regata, short, chinelo). Imagine que no caminho ambos trocam de mala. O que irá acontecer com eles? Um irá morrer de frio e outro de calor.

Sentido: O que tem na sua mala? Quais dons Deus te deu? Sabendo dos seus dons você estará próximo de saber seu chamado. Não olhe para a mala do irmão. “Ah se eu cantasse como ela.” “Ah se eu falasse bem como ele”. “Ah se eu soubesse tocar como fulano”.

Foque na sua mala, quais dons e ferramentas Deus te deu? Use seus dons para a glória de Deus, pois naturalmente isso gerará frutos em sua vida e na vida de muitas pessoas. (Mateus 25:14-30 – Parábola dos Talentos).

Durante sua descoberta a respeito de seu chamado, automaticamente você estará se preparando para vivê-lo de forma plena e completa. E muitas vezes até experiências difíceis e ruins em nossas vidas serão pilares importantes em nosso chamado. A partir delas poderemos ajudar pessoas que estão passando por situações das quais já passamos.


O Paradoxo do Chamado e a Profissão

Afinal a profissão do qual escolhemos precisa estar diretamente ligada ao nosso chamado?

Sim e não. Sim no sentido de chamado universal, ou seja, de sermos luz onde estamos trabalhando, de sermos exemplos de cristãos que vivem plenamente para Deus. E não no sentido de chamado específico (ministério), ou seja, nossa profissão ter que ser algo obrigatoriamente ligado ao que fomos chamados ministerialmente.

Exemplos:

· Pedro era pescador quando foi chamado por Jesus para que o seguisse. O chamado específico de Pedro estava intrinsicamente ligado a viver da obra de forma exclusiva. Isto é, ele abriu mão de sua profissão (pescador) para se tornar discípulo de Jesus e em seguida, apóstolo. Ele pescava peixes e ao conhecer e conviver com Jesus (seu preparo) ele se tornou pescador de almas. (Mateus 16:18).


· Paulo era um perseguidor dos cristãos. Quando ele teve sua experiência com Cristo, de perseguidor passou a ser perseguido. Paulo, porém, ao contrário de Pedro, não abriu mão de sua profissão para viver seu chamado. Ele era fabricante de tendas (Atos 18:1-4) e ao mesmo tempo apóstolo. Paulo conseguiu conciliar sua profissão com seu ministério. Porém ele abriu mão do casamento.

Dois exemplos diferentes de homens de Deus que viveram seus chamados. O que ambos têm em comum? Ambos renunciaram algo importante em suas vidas. Mas viveram na plenitude do que Deus tinha para a vida deles. Para viver seu chamado você terá que renunciar algumas coisas importantes durante sua caminhada. E mesmo que isso pareça assustador e talvez até um sacrifício para você, lembre-se que Jesus abriu mão de sua vida para cumprir seu chamado aqui na terra. Há sacrifícios a serem feitos durante nossa caminhada e isso nos tornará cada vez mais humildes e dependentes de Deus, mais íntimos d’Ele e mais semelhantes a Jesus, que é o propósito primordial do qual fomos criados.

Em suma, que no final de nossa caminhada possamos dizer como Paulo disse a Timóteo:

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos que amarem a sua vinda."

II Timóteo 4:7-8









terça-feira, 4 de julho de 2017

As motivações humanas que levam à Idolatria


A idolatria é um assunto em demasia abrangente. Sabemos que a idolatria existe desde a queda de Satanás e na humanidade, desde o Antigo Testamento. Há muitas situações das quais encontramos nas Sagradas Escrituras sobre o homem fazendo ídolos para si, de barro, pedra, ouro e tantos outros materiais (II Crônicas 7:22). Mas nesse texto quero me deter apenas nas motivações que levam o ser humano a idolatria, e desmitificar também a ideia de que ídolos são exclusivamente externos, e, por conseguinte, visíveis.
Sabemos que uma das buscas primordiais do cristão verdadeiro é “ser como Cristo” e a Bíblia têm várias passagens que falam sobre a importância dessa busca (Fp 2:5-8, Rm 8:29, I Jo 3:2, I Cor 3:18). Com base nisso, podemos entender, que da mesma forma que a busca do cristão em “ser” igual a Cristo é também encontrada na idolatria, ou seja, um idólatra tem suas motivações enraizadas no “ser” como o ídolo.

A raiz da idolatria é propriamente a “busca por identificação com o ídolo” e através dela, temos ramificações, que adiante irei explicar. Primeiramente irei discorrer, em alguns exemplos, sobre o “ser”.
O "Ser"
Para ser prático já de início, pontuo um exemplo: "Uma adolescente busca popularidade, quer ser o centro das atenções, ter as roupas mais caras e estilosas. Ela encontra em uma artista de um filme tudo que ela procura para satisfazer seus desejos de popularidade e estilo. Então ela vai começar a se vestir como essa artista, falar e agir como ela, etc. Essa artista se tornará seu ídolo."

É bem claro nesse exemplo que o "ser" alguém melhor do que "si mesmo" é a motivação que a levou a idolatria.

Agora citarei um exemplo diferente: "Um rapaz que busca exercitar seu dom na área da música. Ele fará aulas, buscará materiais e ferramentas que façam com que seu dom seja melhor a cada dia. Mas, nessa busca por "ser" um músico melhor, esse rapaz acaba se perdendo. Ele encontra um músico do qual ele admira e essa admiração acaba se tornando uma idolatria."

Você consegue perceber que ambos os exemplos são diferentes, mas ao mesmo tempo tem semelhanças também? A diferença se encontra nas motivações iniciais: a dela é errada, a dele é correta. Por quê? A insatisfação dela consigo mesma pode ser gerada por carência de atenção (o que não é errado), porém o erro está no que ela fez com sua insatisfação: ela transformou sua auto insatisfação em uma motivação errada, que é querer ser o centro das atenções. A insatisfação do rapaz já não é errada, pois ele quer apenas exercitar seu dom, melhorar suas técnicas como músico (como qualquer profissional deseja crescimento na área do qual trabalha). O fato de ele querer “ser” um músico melhor, nesse exemplo se centraliza numa origem meramente de crescimento profissional.

A semelhança está no "ser". Eles buscam "serem" pessoas melhores do que "si mesmos". E nessa busca pelo “ser”, ambos acabam buscando em “alguém imperfeito” seu ideal perfeito.

Nesses dois exemplos, espero ter deixado claro, como essa motivação do “ser”, mesmo inicialmente sendo certa ou errada, acabar podendo nos levar a buscar nosso ideal perfeito fora de Cristo.

Algumas ramificações da principal motivação humana da idolatria (o “ser igual ao ídolo”) se encontram a seguir:

O “Ter”: Os dois tipos de ídolos encontrados no “ter”:
  • Ter um ídolo externo: Lembremo-nos da história conhecida do “Bezerro de Ouro” que se encontra em Êxodo 32:1-10. O povo já estava insatisfeito com a demora de Moisés e pediram para Arão com suas jóias e ornamentos fazer um bezerro de ouro. Perceba que para o povo, Moisés era como um deus. Ele era o profeta escolhido por Deus para libertar o povo do Egito, mas o povo agia como se ele fosse o próprio deus, pois na ausência dele, eles o substituíram por um ídolo feito por mãos humanas. Eles não “tinham” mais seu deus (Moisés) por perto, e insatisfeitos pela demora criaram um ídolo para si. Se realmente Deus estivesse em primeiro lugar na vida deles, mesmo com a ausência de Moisés, eles continuariam o esperando, pois sua fé estava em Deus.
  • Ter um ídolo interno: Realmente há vários ídolos internos, mas citarei esse, pois ultimamente tenho visto muitas pessoas adorando esse “ídolo”. Esse ídolo se chama “experiência com Deus”. O “sentir a presença de Deus” é algo sobrenatural e inexplicável, porém quando essa experiência é colocada como base para uma doutrina, automaticamente ela está sendo colocada de igual modo ou até acima das Sagradas Escrituras. Afinal a única base para a doutrina do qual a igreja de Cristo deve seguir é a Bíblia. A experiência com Deus é exclusivamente para nossa edificação e como testemunho para fortalecimento da fé de quem a ouve. Tudo, além disso, se torna idolatria. Muitas pessoas também acabam se vangloriando de “ter” uma ou mais experiências com Deus e acabam tornando as experiências autossuficientes em tudo. Em decorrência disso, na ausência dessas experiências, essas pessoas entram em desespero, pois para elas, o fator fundamental que comprova que Deus está com elas está centralizado nas próprias experiências.

· O “Pertencer” – Desde os tempos da Reforma, muito se tem debatido sobre duas linhas teológicas de interpretação, que surgiram nesse ínterim, do qual muitas igrejas emolduram suas doutrinas: o arminianismo e o calvinismo. Não irei me deter a explicar essas linhas neste texto presente, nem quero com essa ilustração, trazer uma ideia de reducionismo as linhas teológicas citadas acima, afinal elas são importantíssimas para nós, como igreja. Irei apenas exemplificar através delas, como muitos tem criado ídolos a partir do “pertencer” a tal grupo ou linha de interpretação. Não só nas “mídias sociais”, mas muitos grupos têm sido criados com o intuito de defender linha teológica tal, e entrar em debates, na maioria das vezes, desnecessário. É preciso que você entenda algo: a motivação de fazer parte de um grupo arminiano ou calvinista de início talvez não seja errada, mas para onde essa motivação tem te levado? Muitos que se adentram a esses grupos estão procurando “pertencer” a algo importante, se sentirem participantes de algo verdadeiro, fazer novas amizades. Você percebe que algumas dessas motivações não são erradas, mas ao adentrar nesses grupos, alguns podem acabar “idolatrando” o “pertencer” a tal grupo, e, por conseguinte, se sentirem como “donos da verdade” de forma inconsciente, pois justificam seus argumentos no que “fulano” ou “beltrano” disse. Não quero tornar pejorativo esse termo, de justificar seus argumentos por terem sido usados por pastores e pregadores conhecedores da palavra baseados na Bíblia. Meu intuito de exemplificar esse termo dentro desse contexto é um alerta que começa em mim, até porque já passei por situações em que acabei me vendo com “o pertencer” a tal grupo como vanglória e também acabei idolatrando tal pastor ou teólogo pelo simples fato de eu ter a mesma linha de interpretação dele. E talvez você esteja pensando que o termo de “pertencer” a tal grupo ou a tal linha teológica, como sendo mais uma motivação a ídolos, seja atual, mas ele apenas mudou em alguns quesitos. Em I Coríntios 3:4-7 encontramos uma passagem do qual Paulo adverte os corintos a respeito desse termo:

"Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais?
Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?
Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.
Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento."


Em suma, hoje vivemos dias em que a vida de Cristo, como exemplo, para nós cristãos, tem se perdido em nosso meio. E quando o ideal moral, espiritual e social de Cristo é deixado de lado, o ideal perfeito que é o próprio Cristo passa a ser colocado em pessoas imperfeitas ou coisas supérfluas. A busca pelo “ser” alguém melhor se torna extremamente reducionista e pífia; pois o “alvo melhor” que as pessoas desejam se tornar não é nem de longe o verdadeiro alvo a ser buscado, que é Cristo.

Que possamos buscar a cada dia nos espelharmos em Cristo Jesus, sempre atentos em todas nossas motivações, por mais corretas que sejam; que sempre nos perguntemos: para qual ideal perfeito elas estão apontando? Pois, quando não for Cristo, que possamos nos humilhar perante Ele e arrepender-nos.

Deixo com vocês esses versículos:

"Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: que fôssemos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu.
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.
Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro." 1 João 3:1-3


Bibliografia: René Girard; Joel R. Beeke (Vivendo para a glória de Deus); D.A. Carson (Jesus, O Filho de Deus).