Nesse blog irei postar textos e artigos de minha autoria com temas diversos, vistos de uma perspectiva reformada da Bíblia. Também irei postar resenhas e indicações de livros. Você, caro leitor é livre para comentar com críticas, elogios ou complementos, mas sempre com respeito. Este blog tem o intuito de trazer edificação aos cristãos, e, se possível, pela misericórdia de Deus e obra do Espírito Santo, alcançar os perdidos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

As motivações humanas que levam à Idolatria


A idolatria é um assunto em demasia abrangente. Sabemos que a idolatria existe desde a queda de Satanás e na humanidade, desde o Antigo Testamento. Há muitas situações das quais encontramos nas Sagradas Escrituras sobre o homem fazendo ídolos para si, de barro, pedra, ouro e tantos outros materiais (II Crônicas 7:22). Mas nesse texto quero me deter apenas nas motivações que levam o ser humano a idolatria, e desmitificar também a ideia de que ídolos são exclusivamente externos, e, por conseguinte, visíveis.
Sabemos que uma das buscas primordiais do cristão verdadeiro é “ser como Cristo” e a Bíblia têm várias passagens que falam sobre a importância dessa busca (Fp 2:5-8, Rm 8:29, I Jo 3:2, I Cor 3:18). Com base nisso, podemos entender, que da mesma forma que a busca do cristão em “ser” igual a Cristo é também encontrada na idolatria, ou seja, um idólatra tem suas motivações enraizadas no “ser” como o ídolo.

A raiz da idolatria é propriamente a “busca por identificação com o ídolo” e através dela, temos ramificações, que adiante irei explicar. Primeiramente irei discorrer, em alguns exemplos, sobre o “ser”.
O "Ser"
Para ser prático já de início, pontuo um exemplo: "Uma adolescente busca popularidade, quer ser o centro das atenções, ter as roupas mais caras e estilosas. Ela encontra em uma artista de um filme tudo que ela procura para satisfazer seus desejos de popularidade e estilo. Então ela vai começar a se vestir como essa artista, falar e agir como ela, etc. Essa artista se tornará seu ídolo."

É bem claro nesse exemplo que o "ser" alguém melhor do que "si mesmo" é a motivação que a levou a idolatria.

Agora citarei um exemplo diferente: "Um rapaz que busca exercitar seu dom na área da música. Ele fará aulas, buscará materiais e ferramentas que façam com que seu dom seja melhor a cada dia. Mas, nessa busca por "ser" um músico melhor, esse rapaz acaba se perdendo. Ele encontra um músico do qual ele admira e essa admiração acaba se tornando uma idolatria."

Você consegue perceber que ambos os exemplos são diferentes, mas ao mesmo tempo tem semelhanças também? A diferença se encontra nas motivações iniciais: a dela é errada, a dele é correta. Por quê? A insatisfação dela consigo mesma pode ser gerada por carência de atenção (o que não é errado), porém o erro está no que ela fez com sua insatisfação: ela transformou sua auto insatisfação em uma motivação errada, que é querer ser o centro das atenções. A insatisfação do rapaz já não é errada, pois ele quer apenas exercitar seu dom, melhorar suas técnicas como músico (como qualquer profissional deseja crescimento na área do qual trabalha). O fato de ele querer “ser” um músico melhor, nesse exemplo se centraliza numa origem meramente de crescimento profissional.

A semelhança está no "ser". Eles buscam "serem" pessoas melhores do que "si mesmos". E nessa busca pelo “ser”, ambos acabam buscando em “alguém imperfeito” seu ideal perfeito.

Nesses dois exemplos, espero ter deixado claro, como essa motivação do “ser”, mesmo inicialmente sendo certa ou errada, acabar podendo nos levar a buscar nosso ideal perfeito fora de Cristo.

Algumas ramificações da principal motivação humana da idolatria (o “ser igual ao ídolo”) se encontram a seguir:

O “Ter”: Os dois tipos de ídolos encontrados no “ter”:
  • Ter um ídolo externo: Lembremo-nos da história conhecida do “Bezerro de Ouro” que se encontra em Êxodo 32:1-10. O povo já estava insatisfeito com a demora de Moisés e pediram para Arão com suas jóias e ornamentos fazer um bezerro de ouro. Perceba que para o povo, Moisés era como um deus. Ele era o profeta escolhido por Deus para libertar o povo do Egito, mas o povo agia como se ele fosse o próprio deus, pois na ausência dele, eles o substituíram por um ídolo feito por mãos humanas. Eles não “tinham” mais seu deus (Moisés) por perto, e insatisfeitos pela demora criaram um ídolo para si. Se realmente Deus estivesse em primeiro lugar na vida deles, mesmo com a ausência de Moisés, eles continuariam o esperando, pois sua fé estava em Deus.
  • Ter um ídolo interno: Realmente há vários ídolos internos, mas citarei esse, pois ultimamente tenho visto muitas pessoas adorando esse “ídolo”. Esse ídolo se chama “experiência com Deus”. O “sentir a presença de Deus” é algo sobrenatural e inexplicável, porém quando essa experiência é colocada como base para uma doutrina, automaticamente ela está sendo colocada de igual modo ou até acima das Sagradas Escrituras. Afinal a única base para a doutrina do qual a igreja de Cristo deve seguir é a Bíblia. A experiência com Deus é exclusivamente para nossa edificação e como testemunho para fortalecimento da fé de quem a ouve. Tudo, além disso, se torna idolatria. Muitas pessoas também acabam se vangloriando de “ter” uma ou mais experiências com Deus e acabam tornando as experiências autossuficientes em tudo. Em decorrência disso, na ausência dessas experiências, essas pessoas entram em desespero, pois para elas, o fator fundamental que comprova que Deus está com elas está centralizado nas próprias experiências.

· O “Pertencer” – Desde os tempos da Reforma, muito se tem debatido sobre duas linhas teológicas de interpretação, que surgiram nesse ínterim, do qual muitas igrejas emolduram suas doutrinas: o arminianismo e o calvinismo. Não irei me deter a explicar essas linhas neste texto presente, nem quero com essa ilustração, trazer uma ideia de reducionismo as linhas teológicas citadas acima, afinal elas são importantíssimas para nós, como igreja. Irei apenas exemplificar através delas, como muitos tem criado ídolos a partir do “pertencer” a tal grupo ou linha de interpretação. Não só nas “mídias sociais”, mas muitos grupos têm sido criados com o intuito de defender linha teológica tal, e entrar em debates, na maioria das vezes, desnecessário. É preciso que você entenda algo: a motivação de fazer parte de um grupo arminiano ou calvinista de início talvez não seja errada, mas para onde essa motivação tem te levado? Muitos que se adentram a esses grupos estão procurando “pertencer” a algo importante, se sentirem participantes de algo verdadeiro, fazer novas amizades. Você percebe que algumas dessas motivações não são erradas, mas ao adentrar nesses grupos, alguns podem acabar “idolatrando” o “pertencer” a tal grupo, e, por conseguinte, se sentirem como “donos da verdade” de forma inconsciente, pois justificam seus argumentos no que “fulano” ou “beltrano” disse. Não quero tornar pejorativo esse termo, de justificar seus argumentos por terem sido usados por pastores e pregadores conhecedores da palavra baseados na Bíblia. Meu intuito de exemplificar esse termo dentro desse contexto é um alerta que começa em mim, até porque já passei por situações em que acabei me vendo com “o pertencer” a tal grupo como vanglória e também acabei idolatrando tal pastor ou teólogo pelo simples fato de eu ter a mesma linha de interpretação dele. E talvez você esteja pensando que o termo de “pertencer” a tal grupo ou a tal linha teológica, como sendo mais uma motivação a ídolos, seja atual, mas ele apenas mudou em alguns quesitos. Em I Coríntios 3:4-7 encontramos uma passagem do qual Paulo adverte os corintos a respeito desse termo:

"Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo; porventura não sois carnais?
Pois, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e conforme o que o Senhor deu a cada um?
Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.
Por isso, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento."


Em suma, hoje vivemos dias em que a vida de Cristo, como exemplo, para nós cristãos, tem se perdido em nosso meio. E quando o ideal moral, espiritual e social de Cristo é deixado de lado, o ideal perfeito que é o próprio Cristo passa a ser colocado em pessoas imperfeitas ou coisas supérfluas. A busca pelo “ser” alguém melhor se torna extremamente reducionista e pífia; pois o “alvo melhor” que as pessoas desejam se tornar não é nem de longe o verdadeiro alvo a ser buscado, que é Cristo.

Que possamos buscar a cada dia nos espelharmos em Cristo Jesus, sempre atentos em todas nossas motivações, por mais corretas que sejam; que sempre nos perguntemos: para qual ideal perfeito elas estão apontando? Pois, quando não for Cristo, que possamos nos humilhar perante Ele e arrepender-nos.

Deixo com vocês esses versículos:

"Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: que fôssemos chamados filhos de Deus, o que de fato somos! Por isso o mundo não nos conhece, porque não o conheceu.
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser, mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é.
Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, assim como ele é puro." 1 João 3:1-3


Bibliografia: René Girard; Joel R. Beeke (Vivendo para a glória de Deus); D.A. Carson (Jesus, O Filho de Deus).


        






       

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